Saudade é um sentimento que não adormece

MEMÓRIAS DE UM SEMINARISTA - PARTE II

17-05-2011 23:20
As lembranças do seminarista Heráclio Felipe Barbosa
 
Heráclio começou a ensinar antes mesmo de ter aprendido, pois quando ainda tinha, apenas, o curso primário, que havia concluído na Escola Paroquial Dom Bosco do Município de João Alfredo, já era professor.  
"Aprendi, ensinando, diz ele, que é a melhor forma de aprender"
Antes de ingressar para o seminário, o Professor Heráclio vivia em João Alfredo sob a proteção do Pe. Jonas de Menezes, era professor de alfabetização em duas das Escolas Paroquiais, a de Antas e a de Lagoa Funda. Essa última funcionava na casa da sua avó materna, Dona Toinha (in memoriam).
 
 
Josino, seu irmão mais novo, seguiu para o seminário primeiro do que ele, encaminhado pelo Pe. Jonas. Heráclio, ficara em João Ajfredo e ajudava ao padre a custear os estudos dele no Seminário da Várzea.
Em 1958, dois anos depois da entrada de Josino no seminário, o Pe. Jonas percebendo seu empenho, sua dedicação à catequese, sua busca incessante para trazer os jovens para a igreja, resolveu indagar-lhe se, também, não sentia vontade de ser padre.
 
Heráclio lhe respondeu que sim, mas não podia deixar de ajudar ao irmão que já estava no seminário. Todavia, o Padre Jonas lhe garantiu que isso não era problema, pois, bancaria a permanência dos dois no seminário.
 
 
Então, naquele ano de 1958, incentivado pelo Padre Jonas, prestou exame de admissão ao ginásio a uma Banca Examinadora do Seminário da Várzea que viera aplicar as provas em Nazaré da Mata.
Tendo sido aprovado,  seguiu para o Recife levando em sua bagagem as lembranças do que viveu na terra em que nasceu, entre elas, fotos de crianças que havia alfabetizado e preparado para receberem a Primeira Eucaristia. 
 
 
Lourdes e Helena Negromonte
 
Essas duas meninas eram filhas do seu padrinho de crisma, Luiz Negromonte, era um Inspetor de Quarteirão e um influente político, na época, que havia sido eleito vereador.
 
As Primeiras Comunhões da Capela de Antas - 1954
 
Manoel Cavalcante
 
( Capela de Antas, 1954)
 
Severino Júlio e Isaura de Melo
 
( ... Iraci Maria e Audenice Gomes)
 
 
Heráclio partira para o Recife com a forte convicção de que queria ser padre. Fazer o curso ginasial em um seminário, naquela época, valia mais do que um curso superior em qualquer universidade dos tempos de hoje.
Estudou Latim, Português, Inglês, Francês, História, Geografia, Matemática, Ciências, Religião, Desenho, Canto Ofeônico  e, até, Grego constava do seu currículo escolar.
Foi recebido pelo Vice-Reitor, Pe. Edvaldo Gomes, que atualmente é Vigário da Paróquia de Casa Forte, o qual no ano de 2007 sofreu uma punição do Vaticano... Leia mais sobre esse episódio ...
 
Não foi somente ao estudo das línguas que Heráclio se dedicou. Desenvolveu seu gosto e seu talento pela música, pelo canto, e por trabalhos manuais. Virou barbeiro, cabelereiro, fazia conserto de relógios e se interesssou para aprender toda sorte de ofício que lhe mantivesse ocupado e que gerasse alguma fonte de renda que contribuisse para a sua manutenção.
 
No período das férias se deslocava para a sua cidade natal, João Alfredo e, juntamente com o Pe. Jonas, seu protetor, dedicava-se as práticas religiosas compatíveis  com a sua condição de seminarista.
 
O tempo foi passando e a rotina do seminário foi lhe trazendo uma certa tristeza. A solidão foi incomodando cada vez mais. Os colegas seminaristas, nos finais de semana saiam para visitar as suas famílias, seus amigos, e, ele que não tinha parente nem aderente aqui no Recife, começou a se sentir meio que prisioneiro daquelas paredes do seminário.
 
A família que ficara em João Alfredo não tinha poder aquisitivo suficiente para vir visitá-lo, tampouco para custear as suas idas e vindas, quando quisesse matar as saudades.
 
Aos domingos, na impossibilidade de sair para espairecer um pouco, ficava revivendo cenas de sua infância sofrida, pobre e a mercê da  própria sorte, porque seus pais não tinham o preparo suficiente para alcançar os seus anseios de conquistar um lugar ao sol. Havia levado uma vida dura, de muito trabalho e pouco dinheiro.
 
Era uma família pobre financeiramente, mas muito mais pobre de ambição, pois a própria falta de conhecimento do que a vida tinha a oferecer, mesmo aos mais pobres, não lhe dava a condição de compreender que aquela vida estava longe de ser o futuro que os seus filhos desejavam ter.
 
E, dentro dessas abstrações,  diz ele,  lembrou-se de uma prima que morava perto da casinha dos pais dele, que era órfã de pai e mãe e que, por causa disto, havia ido morar com uma tia chamada  Sebastiana. Era uma velha, irmã do seu pai e, também,  do pai dessa menina.
Relembrou dos dias em que a mãe, Alice, saia para trabalhar na roça e pedia a essa prima, que ainda era uma criança, para cuidar dele enquanto ela estivesse no trabalho.
 
Diante daquelas lembranças, que embora distantes no tempo, que naquele momento lhes pareciam tão presentes, não conteve as lágrimas que escorriam pela sua face. Lembrou-se, até, de uma panela de feijão que sua mãe sempre deixava ao alcance da prima, para que ela o alimentasse quando estivesse com fome.
 
Chegou a sentir dor na barriga quando lembrou que, volta e meia, a prima lhe dava um prato cheio do caldo daquele feijão. Sentiu saudades, gostava daquela menina que lhe fizera companhia na infância.
Sentiu vontade de encontrá-la novamente, não para comer feijão, pois naquele momento não estava com fome. Estava bem alimentado. A barriga estava cheia, mas havia um vazio que precisava preencher. Carência afetiva, que é pior do que fome.
 
Lembrou-se de uma história que um tio velho contava. Tiné, era assim que o chamavam.
Tiné sempre contava aquela história sobre aquela menina que encontrara sentada em uma das pedras, atrás da casa do seu pai, Boaventura, no Sítio Brejinho, uma povoação pertencente a João Alfredo.
 
Ele dizia que havia encontrado a menina aos prantos, e que ela lhe confessara que não agüentava mais o sofrimento na casa da Tia Sebastiana. Os seus irmãos, por serem homens,  haviam fugido e ganhado o mundo. Mas ela, por ser mulher, não poderia fazer a mesma coisa. No entanto, não dava mais para suportar os maus tratos, pois a velha que a criava cometia toda sorte de violência, batia  nela e a deixava passar, até,  fome.
 
Aquelas lembranças tão tristes da sua prima "cuidadora" da sua infância, o deixou mais depressivo ainda. Agora pronto, precisava mesmo encontrar aquela prima, pensou consigo mesmo. Continuou com as suas elucubrações a respeito da vida sofrida daquela criatura que passara pela sua vida e havia sumido sem deixar rastros.
 
No pensamento,voltou a ouvir a narração do Velho Tiné do Brejo, sobre o diálogo que havia acontecido entre ele e a prima que havia sumido:
 
Ao ouvir aquela criatura tão pequenina, tão frágil, tão sofrida, sem pai, sem mãe e maltratada por aquela tia que a criava, ele me disso que havia perguntado se ela teria coragem de fugir, também, como fizeram os seus irmãos.
 
- Mas de que jeito?  Ela me perguntou.
- Eu a levo para Limoeiro, lá, eu tenho um compadre, gente fina. Ele fica com você até eu conseguir contato com seu irmão mais velho, para pedir que ele venha lhe buscar.
- Se o senhor me garante que será assim, eu irei. Respondeu a pobre menina.
- Sim, será assim. Eu lhe juro que, assim que descobrir onde seu irmão está, eu falo para ele a levar para morar juntos.
 
E a menina foi até casa da tia Sebastiana, fez uma trouxa das poucas roupas que tinha, e eu cumpri meu trato, levei-a para Limoeiro e a entreguei ao meu compadre. Levei algum tempo para descobrir que o irmão dela estava em Serra Branca, era motorista do Padre Noronha.
Quando lhe contei a situação da menina, ele partiu de lá imediatamente, chegou na casa do meu compadre e a levou consigo.
 
Lá pelas redondezas ninguém ficou sabendo do paradeiro daquela menina, somente muitos anos depois eu revelei o que havia feito, disse Tiné.
 
Quase trinta anos depois, a Tia Sebastiana recebeu uma carta, era daquela menina fujona. Saiu porta a fora, chamando os parentes:
 
- Vejam só a carta que recebi! Leiam, venham todos escutar o que esta carta está dizendo!
Foi Severino, Biu, seu irmão mais velho, que a levou daqui. Deus seja Louvado!
 
Quando se deu conta, depois daquele passeio nos labirintos da mente, Heráclio descobriu que já sabia onde encontrar a prima que havia desaparecido. Lembrou do nome da cidade que ela havia escrito, naquela carta que escrevera para a Tia Sebastiana.
 
Pulou da cama e pegou o bloco de papel para cartas e após escrever, exaustivamente, colocou-a em um envelope e a endereçou com o coração cheio de esperança de que ela chegasse às mãos da sua prima, mesmo s/n e  sem o  nome da rua:
 
Para a Senhora
Rita Barbosa Piancó
Itapetim - PE
 
E a carta chegou. Na minha casa foi uma festa. Todos festejaram, afinal, nós tínhamos dois primos que seriam padres!
 
 
Essa era a família que ficara esperando a resposta dos primos seminaristas, Heráclio e Josino.
 Minha mãe respondera a carta do primo Heráclio e o convidara para vir, junto com com seu irmão, conhecer  seu esposo Antônio Piancó e os seus cinco filhos que, até então, haviam nascido:
Beta, Lusa, Lila, Leta e Dão.
 
 

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